O subtítulo do blog é parte de um texto do poeta português António José Forte (1931-1988), que está no livro "Uma faca nos dentes". Edição portuguesa, reeditado recentemente. Encontrei na web. Uma maravilha, vou ver se consigo o livro inteiro. Por enquanto, sigam com ele, entre a perversão e a utopia:
"Os profetas, os reformistas, os reaccionários, os progressistas arregalarão os olhos e em seguida hão-de fechá-los de vergonha. Fechá-los como têm feito sempre, afinal, e em seguida mergulharem nas suas profecias. Olharem para a parte inferior da própria cintura e em seguida fecharem os olhos de vergonha. Abandonarem-se desenfreadamente à carpintaria das suas tábuas de valores, brandirem-nas por cima das nossas cabeças como padrões para a vida, para a arte, para o amor e em seguida fecharem os olhos de vergonha às manifestações mais cruéis da vida, da arte e do amor."
Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007
Primavera
E veio a primavera.
Agora só resta esperar o fim
Do inverno dos meus dias.
Aguardo um raio de sol...
Agora só resta esperar o fim
Do inverno dos meus dias.
Aguardo um raio de sol...
Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007
Quando o inverno terminar, em Porto Alegre
Quando o inverno terminar, eu vou sair de casa, vou passear,
Vou botar uma roupa legal, e caminhar ao sol.
Quando o inverno acabar, em Porto Alegre
Vou ao Gasômetro, à redenção e ao marinha.
Quando o inverno terminar, vou pra praia,
Dar a mão pro meu amor e caminhar,
à beira-mar.
Vou sentar num bar e tomar uma cerveja,
E olhar o céu, e esperar,
a noite chegar.
Se um dia o inverno terminar em Porto Alegre,
Vou cuidar de rever meus amigos.
E no dia que o inverno terminar vou esquecer das horas
E vou deixar a vida me levar.
Vou rasgar a madrugada com conversa fiada,
E não vou me arrepender no outro dia de ter dormido tão tarde.
Quando o inverno terminar, em Porto Alegre,
Vou subir os morros, vou colher as flores do campo
E vou jogar as pétalas ao vento da primavera.
Vou fazer planos para o futuro,
Vou viajar. E depois, cansado, vou sentar e esperar um novo dia.
E se sobrar um tempinho, vou querer escrever.
E se bobear eu crio um blog e escrevo todo dia...
Mas só depois que o inverno terminar, em Porto Alegre.
Vou botar uma roupa legal, e caminhar ao sol.
Quando o inverno acabar, em Porto Alegre
Vou ao Gasômetro, à redenção e ao marinha.
Quando o inverno terminar, vou pra praia,
Dar a mão pro meu amor e caminhar,
à beira-mar.
Vou sentar num bar e tomar uma cerveja,
E olhar o céu, e esperar,
a noite chegar.
Se um dia o inverno terminar em Porto Alegre,
Vou cuidar de rever meus amigos.
E no dia que o inverno terminar vou esquecer das horas
E vou deixar a vida me levar.
Vou rasgar a madrugada com conversa fiada,
E não vou me arrepender no outro dia de ter dormido tão tarde.
Quando o inverno terminar, em Porto Alegre,
Vou subir os morros, vou colher as flores do campo
E vou jogar as pétalas ao vento da primavera.
Vou fazer planos para o futuro,
Vou viajar. E depois, cansado, vou sentar e esperar um novo dia.
E se sobrar um tempinho, vou querer escrever.
E se bobear eu crio um blog e escrevo todo dia...
Mas só depois que o inverno terminar, em Porto Alegre.
Sexta-feira, 1 de Junho de 2007
Amnésia
João acordou cedo e ficou deitado, pensando na vida. Pensava em muitas coisas que gostaria de fazer: ir à praia, viajar, tomar um café expresso com chantili, andar a cavalo... Só saiu da sua letargia quando a mulher lhe perguntou se por acaso não iria trabalhar naquele dia. João levou um susto, olhou para aquela mulher ao seu lado e se perguntou o que ela fazia ali. Em todo caso, algo lhe indicava que deveria fazer o que ela dizia, e então levantou, tomou um banho, trocou de roupa e foi trabalhar.
Pegou um ônibus e cada lugar por onde passava parecia novo. Em determinado momento, ele desceu e ficou um tempo parado, esperando decidir para onde ia. Naquela estranheza, seguiu seu instinto, caminhou uma quadra e meia e entrou em um prédio. Nos corredores, quando cruzava com alguém, recebia um "bom dia" que retornava com simpatia, embora em nenhum momento pudesse saber quem eram aquelas pessoas. Foi até uma sala e ocupou uma mesa com um computador.
Naquele dia, João ficou o tempo todo sentado na frente daquele computador e não fez nada. Às vezes acessava o menu de programas e iniciava alguma coisa, para ver se sabia o que fazer. Na verdade era isso, João não sabia o que tinha que fazer. Olhava em volta e achava tudo e todos estranhos. Começou a pensar que estava com algum problema. Pensou em perguntar para o chefe o que tinha que fazer, mas a verdade era que ele não sabia quem era o chefe, ou se ao menos tinha um. Esperou o dia todo que alguém lhe cobrasse algo, mas ninguém falou com ele, e nem sequer recebeu um telefonema.
A única vez que lhe dirigiram a palavra foi já no final da tarde, quando uma das pessoas que dividiam a sala com ele perguntou se ele iria ficar até mais tarde. João respondeu que não, e aproveitou que essa última pessoa estava saindo e saiu também.
Na rua, tudo parecia estranho, e João não sabia para onde deveria ir. Se deu conta então de que tudo na sua vida não existia mais, e não existia porque ele tinha esquecido. Pensou que talvez tivesse um celular e procurou nos bolsos. De fato tinha, e por um momento lhe pareceu plausível ligar e pedir ajuda para alguém. No entanto, não sabia quem eram aquelas pessoas cujo nome estavam na sua agenda, e foi aí que viu que seu telefone só serviria para alguma coisa se alguém ligasse.
Veio a noite e João não recebeu nenhuma ligação também. Resolveu ficar ali, na frente daquele lugar onde tinha passado o dia sem saber porquê, pois talvez pela manhã se desse conta de que tudo era um sonho, ou alguém poderia chegar e lhe perguntar o que estava acontecendo e quebrar esse estranho encantamento que estava vivendo. Pegou no sono e quando acordou já era dia de novo. Só que agora João não sabia mais quem era, embora tivesse consciência de que estava no mundo. João passou o dia todo no mesmo lugar, e ninguém lhe perguntou o que fazia ali, sentado na calçada, e ninguém ligou para aquele celular que ele tinha. Pensou que podia ligar para alguém, mas achou difícil porque não saberia dizer quem era nem o que queria. Mais uma vez veio a noite e ninguém lhe dirigiu uma palavra sequer. Então ele constatou que estava sozinho, e que na verdade não estava esquecendo de tudo. João não estava esquecendo de nada. Só que o mundo, de repente, esqueceu que João existia. Percebendo isso, ele se achou muito triste e teve vontade de chorar. E João tentou, se esforçou, mas não pôde lembrar como se chorava.
Pegou um ônibus e cada lugar por onde passava parecia novo. Em determinado momento, ele desceu e ficou um tempo parado, esperando decidir para onde ia. Naquela estranheza, seguiu seu instinto, caminhou uma quadra e meia e entrou em um prédio. Nos corredores, quando cruzava com alguém, recebia um "bom dia" que retornava com simpatia, embora em nenhum momento pudesse saber quem eram aquelas pessoas. Foi até uma sala e ocupou uma mesa com um computador.
Naquele dia, João ficou o tempo todo sentado na frente daquele computador e não fez nada. Às vezes acessava o menu de programas e iniciava alguma coisa, para ver se sabia o que fazer. Na verdade era isso, João não sabia o que tinha que fazer. Olhava em volta e achava tudo e todos estranhos. Começou a pensar que estava com algum problema. Pensou em perguntar para o chefe o que tinha que fazer, mas a verdade era que ele não sabia quem era o chefe, ou se ao menos tinha um. Esperou o dia todo que alguém lhe cobrasse algo, mas ninguém falou com ele, e nem sequer recebeu um telefonema.
A única vez que lhe dirigiram a palavra foi já no final da tarde, quando uma das pessoas que dividiam a sala com ele perguntou se ele iria ficar até mais tarde. João respondeu que não, e aproveitou que essa última pessoa estava saindo e saiu também.
Na rua, tudo parecia estranho, e João não sabia para onde deveria ir. Se deu conta então de que tudo na sua vida não existia mais, e não existia porque ele tinha esquecido. Pensou que talvez tivesse um celular e procurou nos bolsos. De fato tinha, e por um momento lhe pareceu plausível ligar e pedir ajuda para alguém. No entanto, não sabia quem eram aquelas pessoas cujo nome estavam na sua agenda, e foi aí que viu que seu telefone só serviria para alguma coisa se alguém ligasse.
Veio a noite e João não recebeu nenhuma ligação também. Resolveu ficar ali, na frente daquele lugar onde tinha passado o dia sem saber porquê, pois talvez pela manhã se desse conta de que tudo era um sonho, ou alguém poderia chegar e lhe perguntar o que estava acontecendo e quebrar esse estranho encantamento que estava vivendo. Pegou no sono e quando acordou já era dia de novo. Só que agora João não sabia mais quem era, embora tivesse consciência de que estava no mundo. João passou o dia todo no mesmo lugar, e ninguém lhe perguntou o que fazia ali, sentado na calçada, e ninguém ligou para aquele celular que ele tinha. Pensou que podia ligar para alguém, mas achou difícil porque não saberia dizer quem era nem o que queria. Mais uma vez veio a noite e ninguém lhe dirigiu uma palavra sequer. Então ele constatou que estava sozinho, e que na verdade não estava esquecendo de tudo. João não estava esquecendo de nada. Só que o mundo, de repente, esqueceu que João existia. Percebendo isso, ele se achou muito triste e teve vontade de chorar. E João tentou, se esforçou, mas não pôde lembrar como se chorava.
Terça-feira, 22 de Maio de 2007
A vida é isso
Felipe largou tudo e foi viajar. Tinha cansado do trabalho e, afinal de contas, tanto esforço deu pra juntar algum dinheiro. Quase nem acreditou quando seu chefe disse que aceitava fazer um acordo, pois isso lhe garantiu uns trocados extras que lhe seriam muito bem vindos nas aventuras que pretendia fazer. Nada muito radical: queria pegar a estrada, sentir a sensação de liberdade de andar sem rumo, conhecer lugares novos. Queria redescobrir a vida, isso sim!
O que tinha feito nos últimos anos não lhe permitia dizer que vivia, de fato. Tinha estabilidade no emprego e ganhava até razoável. O dinheiro dava para viver com algum conforto, ter o carro que gostava, ajeitar alguma coisa e comprar uns badulaques. Saía pouco, mais por falta de tempo do que de vontade. Embora não fosse tão jovem (já beirava os quarenta anos), ainda não tinha se agarrado a um relacionamento afetivo duradouro. Tivera algumas namoradas e muitas vezes ficara sem ninguém por longos períodos. Gostava de dizer que vivia bem com a solidão, o que talvez fosse verdade. Alguma coisa lhe faltava, porém, e era atrás disso que ele queria ir agora, embora não soubesse o que era.
Da família, visitava os pais de vez em quando. Nos últimos anos com menos freqüência, e eles afinal ainda tinham dois filhos morando juntos, não ficariam desamparados. Felipe era motivo de orgulho para eles, pois sempre teve iniciativa e pôde se projetar um pouco na vida, conquistando um padrão de vida muito superior ao da família.
Sem ninguém, sem compromisso, algum dinheiro no bolso, lá foi Felipe. Disse a todos que iria para a Fronteira, embora isso fosse muito vago. "Vai ver os parentes?" foi o que os pais perguntaram. "Aproveita e faz umas compras", os amigos sugeriram. A ambos não deu muita bola. Gostava de rodar pelas estradas que levavam à Fronteira, de fato. Eram mais calmas, intercalavam longas retas com trechos sinuosos, e eram povoadas muito espaçadamente, por uma gente simples e acolhedora.
Felipe rodou umas 3 horas sem parar. Andava devagar, embora tivesse um carro potente e seguro. Já correra sua vida toda e não alcançara nada, para quê correr agora? Se permitia olhar ao redor, acenar para alguém que andasse pela estrada, observar o relevo, os campos, a vegetação. Cada paisagem na estrada equivalia a um novo bálsamo para seu espírito, e ele respirava fundo enquanto ouvia o ronco suave do motor do carro. Buscava a vida, a verdadeira, agora. Tinha mandado tudo para a puta que o pariu e se sentia feliz por isso. "Que se danem os chefes, os clientes, o banco, o plano de saúde, os cartões de crédito" pensava consigo. "Que se fodam os shoppings!" gritou, dentro do carro.
Seu estômago roncou, e ele se deu conta de que precisava comer algo. Não sabia que horas eram, mas agora o que mandava era seu ritmo, sua vida, a verdadeira vida! Enxergou ao longe uma placa, escrita toscamente: "comida caseira". Bingo! Nada de buffets executivos com comida balanceada, era de uma boa comida caseira que precisava.
Parou o carro, desceu. Era uma casa simples, retirada uns 50 metros da estrada, por um caminho marcado pelas rodas dos veículos. Não fosse a placa da "Coca-cola" ao lado da porta, diria-se ser apenas uma moradia. Um caminhão "boiadeiro" encontrava-se estacionado à sombra de uma grande árvore, ao lado da casa. Entrou e se deparou com um salão amplo, onde apenas um cliente, sentado à uma das mesas, olhava para uma TV antiga enquanto tomava um guaraná. O homem desviou discretamente seus olhos para observar Felipe, e seguiu na sua atenção ao programa televisivo. Veio de dentro da casa uma senhora já idosa, vestindo um avental ensebado. Felipe perguntou pela comida, ao que a velha respondeu que naquele horário não tinha mais. Mas poderia lhe preparar algo, "quem sabe um bife com pão, ou frito um pastel na hora, se o senhor quiser". Felipe optou pelo pastel, que lhe pareceu mais adequado à condição de viajante solitário. Sentou em uma mesa para esperar. Tudo era simples, rústico e limpo, embora algumas moscas rondassem as mesas. Em pouco tempo sentiu o cheiro da gordura quente vindo lá de dentro, e em menos tempo ainda a velha trouxe seu pastel em um prato, sobre um guadarnapo. Agradeceu e pediu um refrigerante de guaraná. Levou o pastel à boca e degustou com prazer. Ao dar a segunda mordida e encontrar o recheio, sentiu que uma lágrima lhe brotava no olho. Sorriu. "A vida é isso", pensou, "a vida é um pastel na beira da estrada".
O que tinha feito nos últimos anos não lhe permitia dizer que vivia, de fato. Tinha estabilidade no emprego e ganhava até razoável. O dinheiro dava para viver com algum conforto, ter o carro que gostava, ajeitar alguma coisa e comprar uns badulaques. Saía pouco, mais por falta de tempo do que de vontade. Embora não fosse tão jovem (já beirava os quarenta anos), ainda não tinha se agarrado a um relacionamento afetivo duradouro. Tivera algumas namoradas e muitas vezes ficara sem ninguém por longos períodos. Gostava de dizer que vivia bem com a solidão, o que talvez fosse verdade. Alguma coisa lhe faltava, porém, e era atrás disso que ele queria ir agora, embora não soubesse o que era.
Da família, visitava os pais de vez em quando. Nos últimos anos com menos freqüência, e eles afinal ainda tinham dois filhos morando juntos, não ficariam desamparados. Felipe era motivo de orgulho para eles, pois sempre teve iniciativa e pôde se projetar um pouco na vida, conquistando um padrão de vida muito superior ao da família.
Sem ninguém, sem compromisso, algum dinheiro no bolso, lá foi Felipe. Disse a todos que iria para a Fronteira, embora isso fosse muito vago. "Vai ver os parentes?" foi o que os pais perguntaram. "Aproveita e faz umas compras", os amigos sugeriram. A ambos não deu muita bola. Gostava de rodar pelas estradas que levavam à Fronteira, de fato. Eram mais calmas, intercalavam longas retas com trechos sinuosos, e eram povoadas muito espaçadamente, por uma gente simples e acolhedora.
Felipe rodou umas 3 horas sem parar. Andava devagar, embora tivesse um carro potente e seguro. Já correra sua vida toda e não alcançara nada, para quê correr agora? Se permitia olhar ao redor, acenar para alguém que andasse pela estrada, observar o relevo, os campos, a vegetação. Cada paisagem na estrada equivalia a um novo bálsamo para seu espírito, e ele respirava fundo enquanto ouvia o ronco suave do motor do carro. Buscava a vida, a verdadeira, agora. Tinha mandado tudo para a puta que o pariu e se sentia feliz por isso. "Que se danem os chefes, os clientes, o banco, o plano de saúde, os cartões de crédito" pensava consigo. "Que se fodam os shoppings!" gritou, dentro do carro.
Seu estômago roncou, e ele se deu conta de que precisava comer algo. Não sabia que horas eram, mas agora o que mandava era seu ritmo, sua vida, a verdadeira vida! Enxergou ao longe uma placa, escrita toscamente: "comida caseira". Bingo! Nada de buffets executivos com comida balanceada, era de uma boa comida caseira que precisava.
Parou o carro, desceu. Era uma casa simples, retirada uns 50 metros da estrada, por um caminho marcado pelas rodas dos veículos. Não fosse a placa da "Coca-cola" ao lado da porta, diria-se ser apenas uma moradia. Um caminhão "boiadeiro" encontrava-se estacionado à sombra de uma grande árvore, ao lado da casa. Entrou e se deparou com um salão amplo, onde apenas um cliente, sentado à uma das mesas, olhava para uma TV antiga enquanto tomava um guaraná. O homem desviou discretamente seus olhos para observar Felipe, e seguiu na sua atenção ao programa televisivo. Veio de dentro da casa uma senhora já idosa, vestindo um avental ensebado. Felipe perguntou pela comida, ao que a velha respondeu que naquele horário não tinha mais. Mas poderia lhe preparar algo, "quem sabe um bife com pão, ou frito um pastel na hora, se o senhor quiser". Felipe optou pelo pastel, que lhe pareceu mais adequado à condição de viajante solitário. Sentou em uma mesa para esperar. Tudo era simples, rústico e limpo, embora algumas moscas rondassem as mesas. Em pouco tempo sentiu o cheiro da gordura quente vindo lá de dentro, e em menos tempo ainda a velha trouxe seu pastel em um prato, sobre um guadarnapo. Agradeceu e pediu um refrigerante de guaraná. Levou o pastel à boca e degustou com prazer. Ao dar a segunda mordida e encontrar o recheio, sentiu que uma lágrima lhe brotava no olho. Sorriu. "A vida é isso", pensou, "a vida é um pastel na beira da estrada".
Estratégia de trabalho
Parece mentira que eu estou escrevendo um post com esse título. Afinal, isso aqui não é para ser trabalho, e sim descontração. Acontece que, como eu tinha previsto, falta tempo para postar os textos, e até para escrevê-los. Tenho tido surtos de criatividade nos momentos mais inadequados, quando é impossível acessar algum meio de registrar as idéias que me vem à cabeça. Acho que vou fazer como o Charles Kiefer, que disse uma vez numa entrevista que leva sempre consigo um pequeno bloco para anotar as idéias que depois irão compor os seus escritos. Em todo caso, revirando meus arquivos encontrei alguns textos antigos (coisas dos últimos 5 anos), que ainda continuam atuais. Vou aproveitar esse material e postar aqui de vez em quando, com alguma marcação que os identifique (tipo do baú ou coisa assim). Dessa forma mantenho o blog atualizado enquanto não encontro tempo para produzir.
Sexta-feira, 18 de Maio de 2007
Pieguices
Não quero assustar ninguém com pieguices, até porque não é o tom deste blog. No entanto, quero falar um pouco de amor e paixão. Faz muito tempo que não me apaixono, embora as lembranças que tenho me levem a crer que é uma das coisas mais lindas do mundo. Minha última paixão está comigo até hoje, já faz mais de sete anos, e vivemos um amor intenso e verdadeiro. Nosso amor nasceu de uma grande amizade, e isso, que pode parecer bom, nos causou muitos problemas de início. Mas superamos todos (não foi fácil) e hoje somos grandes amigos e amantes, parceiros e confidentes. Mudamos nossa vida um bocado, em virtude da nossa coexistência, e temos construído muitas coisas juntos. É difícil falar de alguma coisa que um de nós faça e que o outro não seja parceiro ou apoiador.
Não sei por onde anda aquele sentimento de paixão que tínhamos no começo. O certo é que ele não me faz falta. Outro dia me peguei cantando e pensei há quanto tempo não cantava para a Angela. Era algo que eu fazia com freqüência, e que com certeza ela gostava mais do que gostaria hoje de ouvir. Vejo algumas pessoas apaixonadas de vez em quando, mas isso é cada vez mais difícil.
Vejo pessoas apaixonadas por seus carros novos, por suas casas, por seus celulares, mas cada vez menos pessoas apaixonadas por outras pessoas. Não acho que as pessoas têm que andar por aí exibindo florzinhas e borboletinhas em volta do seu semblante, mas quando essa coisa tão intensa deixa de ser direcionada a um ser humano, me parece que existe um problema. E o problema pode ser justamente a impossibilidade desse sentimento se fortalecer e se transformar numa ferramenta para a vida, carregada de reciprocidade, de companheirismo. É isso que eu vivencio na minha vida hoje. Sei que estar apaixonado foi um momento dessa mesma relação, mas acho que naturalmente conquistamos a maturidade dos nossos sentimentos. Não tenho a preocupação que isso vá durar por toda a vida, e isso é muito importante, pois não estabelecemos compromissos para um futuro juntos, e sim construímos os pilares de duas vidas autônomas, livres, capazes de seguir seu rumo no momento que o outro não puder ou não quiser mais estar presente. Em todo caso, espero que isso ainda leve muito tempo para acontecer.
Não sei por onde anda aquele sentimento de paixão que tínhamos no começo. O certo é que ele não me faz falta. Outro dia me peguei cantando e pensei há quanto tempo não cantava para a Angela. Era algo que eu fazia com freqüência, e que com certeza ela gostava mais do que gostaria hoje de ouvir. Vejo algumas pessoas apaixonadas de vez em quando, mas isso é cada vez mais difícil.
Vejo pessoas apaixonadas por seus carros novos, por suas casas, por seus celulares, mas cada vez menos pessoas apaixonadas por outras pessoas. Não acho que as pessoas têm que andar por aí exibindo florzinhas e borboletinhas em volta do seu semblante, mas quando essa coisa tão intensa deixa de ser direcionada a um ser humano, me parece que existe um problema. E o problema pode ser justamente a impossibilidade desse sentimento se fortalecer e se transformar numa ferramenta para a vida, carregada de reciprocidade, de companheirismo. É isso que eu vivencio na minha vida hoje. Sei que estar apaixonado foi um momento dessa mesma relação, mas acho que naturalmente conquistamos a maturidade dos nossos sentimentos. Não tenho a preocupação que isso vá durar por toda a vida, e isso é muito importante, pois não estabelecemos compromissos para um futuro juntos, e sim construímos os pilares de duas vidas autônomas, livres, capazes de seguir seu rumo no momento que o outro não puder ou não quiser mais estar presente. Em todo caso, espero que isso ainda leve muito tempo para acontecer.
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